Nada substitui o talento

“Na maioria dos casos, não é possível mesmo ignorar, esconder ou reprimir um talento”, Nunes.

Há quem acredite que basta um grupo de críticos de literatura se unir no elogio a um escritor ou a uma escritora para que este ou esta faça parte de um cânone reconhecido por todos.

Mas não é assim que funciona. Nem toda invisibilidade é feita de maneira deliberada. Na maioria dos casos, não é possível mesmo ignorar, esconder ou reprimir um talento.

Por exemplo, grande parte da literatura ocidental faz referência direta ou indireta aos textos bíblicos, assim como incontáveis obras repetem a estrutura ou a temática de Shakespeare, de Homero, de Eurípedes, de Cervantes.

Nos países lusófonos, é impossível não reconhecer referências como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Drummond, Pessoa, Camões entre outros.

E isso não tem necessariamente relação com quem escreve, mas com os traços de sua escrita. O “como se escreve” é muito importante para a chamada estética literária, mais até do que posicionamentos políticos.

Fazer o quê? Não é que eu defenda isso. É que se trata de um fato. Talento encanta. Quer um exemplo no Brasil? Nelson Rodrigues. O homem era talentoso. Escrevia alguns absurdos do ponto de vista ético atual, digo, de considerável parte da esquerda. Mas é inegável a qualidade de seus textos.

Entre os falantes da língua espanhola na América do Sul, dois escritores, opostos quanto à política, são referências literárias incontestáveis. Neruda e Borges.

Qual ateu poderia questionar a qualidade dos textos de Antonio Vieira? Qual religioso seria capaz de duvidar das habilidades de Saramago?

O que tudo isso quer dizer? Simplesmente que não adianta forçar a barra. É óbvio que uma campanha em torno de um artista pode vender bastante, criar movimentos em seu entorno, mas não é isso que fará seu traço, seu estilo, suas ideias permanecerem por meio dos textos dos que virão após ele.

Não é quem escreve, mas o que e como se escreve o que mais interessa. Se a crítica promove os textos de uma pessoa apenas porque ela partilha uma ideologia, uma visão de mundo, uma etnia, uma sexualidade, um gênero, uma religião ou outras características de sua identidade, então isso se assemelha muito a uma infantilização da produção literária. E, mais que isso, o “tiro sai pela culatra”, porque reforça a qualidade, em comparação, do que poderíamos chamar de cânone tradicional.

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El-Buainin Nunes, professor peladeiro, mas não o contrário. Adora fazer e criar filhos.

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