O problema do Ser na filosofia pré-socrática

“A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda […]: a água é a origem […] de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; e, enfim, em terceiro lugar, porque nela […] está contido o pensamento: Tudo é um”, Nietzsche.

A principal diferença entre a ontologia de Tales e as explicações mitológicas evidencia-se na sua proposição de que há uma causa natural para a realidade, diferentemente da mitologia, que explica apelando ao sobrenatural e misterioso.

Enquanto os poetas gregos por meio do conhecimento sensível e imaginativo atribuem aos deuses a causa do Ser, Tales a enxerga como um fenômeno físico autônomo[1], que existe de si para si.

O filósofo utiliza a ideia de causa e efeito para evitar qualquer tipo de regressão infinita e abstrata. Supõe a água (símbolo do fluido) como arkhé (causa primeira das coisas existentes). Seu ponto de partida parece ter sido a observação da constante transformação das coisas umas nas outras (devir?). A originalidade de sua proposta não esteve diretamente relacionada à qualidade do elemento escolhido, mas à ideia de physis (unidade da realidade).

É Anaximadro quem inaugura a discussão sobre o devir (tornar-se/vir a ser), o reconhecendo como eterno e cíclico, porém trabalha com um tipo de arkhé indefinida e infinita, chamada ápeiron, características estas que obscurecem sua descoberta.

Apenas com Heráclito a noção de devir é levada às últimas consequências, onde conclui-se que todas as coisas estão num fluxo contínuo, argumento sintetizado pelo termo panta rei (tudo flui). Uma ilustração de seu pensamento está na famosa frase “não podemos entrar duas vezes no mesmo rio”, pois da segunda vez, rio e pessoa, já não são mais os mesmos.

Para Heráclito, tudo está em transformação, embora a realidade seja dotada de um fato básico que é único. Trata-se de uma unidade na pluralidade, ou unidade de opostos. Não é vista como tensão negativa, ao contrário, ela fornece o equilíbrio necessário. Assim, o filósofo de Éfeso toma como arkhé, o fogo, elemento que se auto-consome, e que simboliza a dinâmica do real.

Muitos especialistas consideram Heráclito pai da dialética, visto que sua prática sustenta opostos que não se anulam, mas que se integram; princípio adotado também por Hegel, séculos depois.

Só um grande achado duraria tanto tempo.


  1. Por isso Aristóteles rotulou os pré-socráticos – onde inclui-se Tales – como physiólogos.

Leia mais em:

  1. MARCONDES, Danilo. História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgenstein. 6ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
  2. RESENDE, Antônio (org.). Curso de Filosofia: Para professores e alunos do ensino médio e graduação. 15ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

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Fábio Coronel, professor e músico iludido. Idealizador do projeto Autonomia EaD | Divulgação Filosófica.

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