Sexo, cotidiano, teologia e o tempo

“A sobrevalorização de uma vida pomposa pode acarretar na cobrança exagerada da pessoa consigo mesma”, Valentim.

Tenho o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo. Talvez muita gente ache esse hábito estranho, mas, fazer o quê? Eu o tenho.

Há pouco, li no kindle dois livros bem diferentes no conteúdo e na forma. Fiz uma comparação interessante sobre eles.

O primeiro livro era Confissões, 43 histórias sexuais para desmitificar as crenças equivocadas sobre a sexualidade, supervisão de E. Riveiro[1]. O Segundo, Simplesmente Crente, do teólogo reformado Michael Horton[2].

Em Confissões, o primeiro depoimento é de uma mulher de 40 anos, casada há doze, mãe de dois filhos, que sentia que seu casamento tinha caído na monotonia. Ela entendia que precisava de mais aventura, de momentos especiais, de experiências mais tórridas. Não aguentava mais o sexo rotineiro, sem criatividade e sem graça com o marido. Resolveu então ter um amante. E, ao amante, permitiu acesso – e penetração – a regiões do corpo sonegadas ao marido – com direito a sexo sadomasoquista. O amante, o sádico, ela, a masoquista.

Comparando com o que Horton escreveu em seu livro, existe um grande contraste.

Ele faz uma defesa da cotidianidade. E diz o óbvio: a maior parte do nosso tempo é dedicada a atividades que poderíamos chamar de comuns.

De manhã, acordar cedo para ir trabalhar, preparar a lancheira do filho, deixá-lo na creche. A noite, chegar em casa depois de um dia exaustivo, varrer a sala, limpar a bagunça na cozinha, lavar louça, cuidar do filho febril. No fim de semana, trocar óleo, alinhar e balancear os pneus do carro.

Bem, essas não são coisas especiais. São corriqueiras. Bastante corriqueiras, por sinal. E segundo Horton, pesa o fato de que hoje há até mesmo uma certa aversão à palavra corriqueiro.

Para ele, a execução das ditas atividades comuns é uma oportunidade para glorificar a Deus. E para ilustrar o que propugna, o teólogo menciona a história de uma jovem cristã que, com vinte e poucos anos, tencionava uma experiência impactante: então decidiu ser missionária na África. Ao voltar para os Estados Unidos, a moça se deu conta de que precisava terminar a faculdade, arrumar emprego, enfim, tocar a vida.

Casou-se. Teve filhos. Contudo, a rotina doméstica a faz perceber que, por vezes, é mais fácil ser cristã atuando como missionária no exterior do que em casa com o marido (nas desavenças do dia a dia) ou com os filhos (nas horas de pirraça) ou com a mãe (quando esta liga cobrando a filha por não lhe dá muita atenção).

Horton, fala a partir de uma perspectiva teológica específica (a reformada), o que não significa que sua análise se restringe a isso, pois trata de uma angústia típica de nosso tempo.

A questão é que, no período em que vivemos, existe uma fixação por novidade, por imponência. Permeia a cobrança por “grandes histórias”; e sempre vivenciar algo novo e vibrante. Nada parece permanente. Essa impermanência acaba desembocando no consumismo, engendrando a cultura do descarte. Dos produtos descartáveis, dos relacionamentos descartáveis e das pessoas descartáveis.

Outra característica deste nosso tempo é o desprezo da vida simples, dos acontecimentos comuns, das profissões triviais; e no fim, do homem simples. Pedreiros, taxistas, carpinteiros, professores, caminhoneiros, são vistas como ocupações menores; de fracassados.

Alguns desses profissionais tentam se enquadrar no anseio geral, buscando, a todo custo, “subir” na vida. – Entenda esse “subir na vida” como enriquecer, não importando os meios empregados -. Quantos não se decepcionam, sem auferir sucesso?

A sobrevalorização de uma vida pomposa pode acarretar na cobrança exagerada da pessoa consigo mesma, e, por que não, de parceiro para parceiro. Sabemos que muitos casais, em suas discussões, lançam em rosto um do outro que o cônjuge tem uma vida malsucedida. Sem notar utilizam ocultas regras de medição: ora o critério econômico, ora grandes feitos do que se gabar.

É preciso ter em mente que, ao procurar momentos grandiloquentes corre-se o risco de tirar os pés do chão, e embarcar numa divagação sem substância.

Não é possível produzir qualquer momento especial. Ele simplesmente acontece. Aquele encontro ansiosamente programado tende a ser um fiasco em razão das altas expectativas criadas. Quanto mais se quer algo, menos se consegue. O desejo por fazer um discurso impecável pode resultar em mudez na hora de falar; a vontade de ter uma performance sexual estupenda pode dar em disfunção erétil.

Por este motivo, Viktor Frankl desenvolveu uma técnica para qual deu o nome de intenção paradoxal[3], que consiste em tentar, premeditada e conscientemente, fracassar na execução da tarefa intimidante. Frankl parte da noção de que pressão produz contrapressão. Medo resulta em mais medo. Portanto, a chave para superar isso é
imaginativamente forçar-se a fracassar na realização da atividade de que se teme. Ao tentar conscientemente falhar, dá-se o inverso.

Talvez seja clichê, mas vem a calhar ao nosso propósito, aludir à concepção grega a respeito do tempo[4], a saber, tempo chronos e tempo kairós.

Tempo chronos é o tempo que corre, é aquele que se pode quantificar. Poderíamos nomeá-lo de cotidianidade. Os afazeres do dia-a-dia fazem parte dele. Contudo, no desenrolar dessas atividades simplórias, pode ser que algo extraordinário ocorra. Esse evento extraordinário, para os gregos, é o kairós, o tempo especial e qualitativo. É a ocasião suprema. O instante indeterminado e oportuno, que, porém, não dura muito. Passa rápido. Não é possível trazê-lo de volta. É pássaro que vem e não volta mais.

De tudo o que foi dito aqui, quem sabe alguém pense que o quadro retratado
diz respeito à realidade de apenas certa parcela da população – trabalhadores da classe média… pode ser. Mas o fato é que todos nós dedicamos a maior parte de nosso tempo a laborar nas tarefas comuns. E pode acontecer que, na execução das tais, repentina e gratuitamente, algo especial ocorra.

No mais das vezes, nada especial depende de nossa vontade. Pois momentos assim são da ordem do extraordinário, e por isso, fugidios. Pode até ser que na vivência de nosso chronos, resplandeça um belo kairós.


[1] E. Riveiro. 43 histórias e confissões sexuais para desmitificar as crenças equivocadas sobre a sexualidade, São Paulo, Editora CreateSpace Independent Publishing Platform, 16/07/2017.
[2] HORTON, Michael. Simplesmente Crente: por uma vida cristã comum, São Paulo, Editora Fiel, 10/03/2016.
[3] Viktor Frankl faz referência a esta técnica em várias de suas obras. Quem quiser se aprofundar mais pode ler: (a) FRANKL, Viktor E. Um sentido para a vida. Psicoterapia e Humanismo, Aparecida: Ideias e Letras, 11 ed., 2005, p. 105-136; FRANKL, Viktor E. A vontade de  sentido: fundamentos e aplicações da logoterapia, São Paulo: Paulus, 2011, p. 125-145; FRANKL, Viktor E. Teoria e terapia das neuroses: introdução à logoterapia e à análise existencial, São Paulo: É Realizações, 2016, p. 189-192.
[4] Os gregos usavam três palavras para falar sobre o tempo: Chronos, kairós e aion. Aqui me detive apenas a duas; aion seria o tempo eterno.

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Elias Valentim, contador de números e de histórias. Leigo anglicano.

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