A política do “por que não?”

“Cada sociedade deve se responsabilizar por sua época”, Coronel.

Nenhum formato de fazer política pode ser maior que nossa capacidade de raciocinar. Há tempos, a razão universal indica que o reducionismo nos saberes e fazeres públicos são insuficientes a uma vida coletiva que se mostra cada vez mais complexa.

O que se vê é mais do mesmo, ou seja, pura alienação, dissimulada por discursos sobre liberdade, igualdade, blá blá blá…

Dos muitos significados que poderíamos atribuir à palavra “alienação”, o mais apropriado seria: condição de quem está alheio ao reconhecimento da própria condição. E não é como se encontra nossa discussão política: polarizada, estereotipada, verticalizada, centralizada e integrista, sem se dar conta?

É irônico que até mesmo manifestações reservadas ao desvelamento de estruturas opressoras sejam apontadas como alienadas e/ou alienadoras, no entanto, sempre que elas pretendem promover amplos debates detendo-se a apenas um recorte da experiência, os são, e por isso devem ser denunciadas como expressões obsoletas de cidadania, incapazes de orientar novas tendências.

Qualquer abordagem política construída conforme o sistema vigente já está comprometida desde a base, ou como diria Aristóteles, “O menor desvio inicial da verdade multiplica-se ao infinito à medida que avança”[1].

O desatino do qual falamos pode se revelar em termos mais perceptíveis. Enquanto a atuação pública for discutida tendo as questões preliminares como certas e irrefutáveis, independentemente de ideologia ou partido político, o resultado será o mesmo: diminuto e parcial.

– Mas buscamos o desenvolvimento do ser humano como um todo! Ou não!?… logo…

Por que não uma discussão política que perceba a continuidade entre natureza e ser humano? Sem diligências sustentáveis não existe vida possível. Decisões radicais nesse âmbito não são um favor à natureza, e sim a esperança de algum futuro.

Por que não uma discussão que interaja individualidade e coletividade? Sabemos que essas instâncias se inter-determinam, inter-dependem.

Por que não uma discussão que acolha as diferenças e a diversidade sem valorações exacerbadas, sem maniqueísmo?

Por que não ambientes participativos, inclusivos, democráticos, dialógicos, horizontais e descentralizados?

Assumir a complexidade da sociedade, apesar de mais trabalhoso, parece ser o único caminho possível. No mínimo aponta para um paradigma emergente, suprapartidário, em que o progresso do ser humano, em todas as suas dimensões, é o foco.

Para que isso aconteça, precisamos sair do ensimesmamento, indo além, sair das ilhas ideológicas que nos impedem de dialogar. Esta talvez seja a maneira mais imediata de percebermos que as questões que nos tocam, embora tenham raízes históricas e materiais, continuam exclusivamente nossas. Cada sociedade deve se responsabilizar por sua época… só os que não estão alheios a ela poderão contribuir com um bocado.


[1] ARISTÓTELES, Metafísica, 2, (3), I.

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Fábio Coronel, professor e músico iludido. Idealizador do projeto Autonomia EaD | Divulgação Filosófica.

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