Cultura da irresponsabilidade

“Terceirizar responsabilidade não é caminho para autoconhecimento, mas para uma imaturidade sem fim”, Valentim.

Há poucos dias aconteceram eventos tristes na Grande Vitória, dois graves acidentes de trânsito. Um, na terceira ponte em Vila Velha. Outro, numa rodovia na Serra.

Sobre o da terceira ponte, certa madrugada, um casal de namorados voltava para casa de moto – pois a namorada queria passar a noite na praia – quando, repentinamente, dois carros disputando racha a uma velocidade em torno de 150 km/h, alvejaram o casal. O motoqueiro e a carona morreram fulminantemente.

Os dois motoristas responsáveis pelo acidente voltavam de uma boate, em Vila Velha mesmo; noite de diversão e muita bebida. Ao saírem da boate, chegando à terceira ponte, decidiram disputar quem tinha o carro mais possante.

Após o incidente, um dos envolvidos – pode-se dizer: assassino (?) – ainda quis, na delegacia, diante do delegado, culpar o condutor da moto, mesmo este na faixa e dentro do limite permitido na via.

A outra tragédia rodoviária ocorreu na Serra, provocada por uma carreta que transportava rocha de granito, sem qualquer tipo de amarradura. O caminhoneiro perdeu o controle numa curva, atingindo um carro de passeio que vinha do outro lado.

A família que estava no carro foi dizimada. O pai, condutor do veículo, a mãe e um bebê de um ano morreram na hora. Um dos filhos, menino de 11 anos, a princípio, sobreviveu. Foi internado. E depois de uma semana, acabou falecendo no hospital.

O comportamento dos motoristas causadores dos acidentes revela pelo menos duas coisas preocupantes, e em voga em nossos dias:

1ª – A mania de agir sem pesar as consequências dos próprios atos. Esses motoristas agiram sem considerar que os atos têm consequências. E que essas consequências poderiam ser trágicas. Agiram sem pensar que as atitudes reverberam e têm desdobramentos; não pararam para avaliar – nem cinco segundos – o que o modo imprudente de dirigir deles poderia ocasionar. Assim, denotaram desprezo à
razão.

2ª – A segunda coisa é o emprego abusivo de desculpas para as próprias imprudências. O motorista infringe a lei, e culpa a vítima pelo lamentável incidente. Culpar terceiros pelos próprios erros não é algo que começou agora. Discutamos em especial esse tópico.

Na Bíblia, depois do episódio da Queda, no momento em que Deus passeia pelo Jardim do Éden a procura de Adão e Eva, estes se escondem de Deus. Quando indagados onde estavam, Adão responde:

“Ouvi teus passos e fiquei com medo, porque estava nu, por isso me escondi. E Deus perguntou: quem lhe disse que você estava nu? Você comeu do fruto da árvore da qual lhe proibi comer? Disse o homem: foi a mulher que me deste por companheira que me deu o fruto da árvore e eu comi”[1].

A bem da verdade, Adão quis dizer: – a culpa não é minha. É da mulher, e em última instância, sua ó Deus, afinal de contas, foi o Senhor quem me deu esta mulher.
Shakespeare, em Rei Lear, põe na boca do personagem Edmundo as seguintes palavras:

“Tal é a excelente loucura do mundo que, se nos encontramos de mal com a fortuna (o que acontece frequentemente por nossa própria culpa), achamos que o sol, a lua e as estrelas sejam culpados de nossas desgraças; como se fôssemos vilões por necessidade, loucos por compulsão celeste; patifes, ladrões e traidores pelo predomínio das esferas; bêbados, embusteiros e adúlteros pela obediência forçada ao influxo planetário e como se só fizéssemos o mal por instigação divina! Admirável escapatória do homem femeeiro[2] essa de colocar suas veleidades lúbricas sob a responsabilidade de uma estrela!”[3].

O escritor Theodore Dalrymple inspira-se justamente na citação de Shakespeare para asseverar que há no nosso tempo uma cultura que subverte a moralidade. A isto, ele chama de cultura das Evasivas Admiráveis.

Faz parte desta cultura o psicologismo que atenua a responsabilidade humana, que articula desculpas e transferências de responsabilidade. Para tal sistema, os erros cometidos têm como origem a culpa alheia como causa primária. Um pai ausente, uma mãe castradora, uma avó ou avó fundamentalistas, enfim, uma família disfuncional – e até mesmo, outro trauma qualquer.

Não abraço o radicalismo anti-psicologia do Theodore Dalrymple – pois é óbvio que o histórico familiar, e fatores diversos que não dependem do controle do indivíduo, influenciam no desenvolvimento do caráter, e naquilo que somos. Mas a crítica que Dalrymple faz precisa ser ouvida.

Vivemos, sim, numa época em que a responsabilidade pessoal tem sido descurada. Época a qual, conforme destacado, nós não estamos medindo as consequências de nossas ações. Falamos o que vem à mente, sem a menor preocupação com os sentimentos alheios – diga-se de passagem: um pouco mais de superego não faria mal para muita gente –, e pensamos que nossas palavras ferinas não terão consequências.

Agimos imprudentemente, e não pensamos que colheremos o fruto de nossas ações.
Os acidentes de trânsito mencionados no introito deste texto poderiam ter sido evitados – se seus causadores tivessem refletido sobre seu (mau) comportamento, quer dizer, sobre o modo imprudente que dirigiam. E muitos flagelos pessoais podem ser evitados se cada um de nós ponderar um pouco mais acerca das próprias atitudes. Se cada um parar
para balançar os prováveis desdobramentos de seus atos.

– “Se meu comentário for machucar a suscetibilidade alheia, é melhor não fazê-lo. Se meu destempero for – e vai – ferir os sentimentos do meu cônjuge, é melhor me auto-conter”.

Levar o outro em conta nas próprias elucubrações é sinal de maturidade. E nada tem a ver com permitir ser esmagado pelas idiossincrasias de terceiros: é entender que a existência de um outro é fundamental para o desenvolvimento pessoal. Quando nasci foi a convivência com outras pessoas que me socializou – com todas as implicações que isso tem.

Todavia, não vou me desenvolver como pessoa se for adepto das evasivas admiráveis. Se culpar terceiros pelos meus próprios erros. Como Dalrymple disse: vivemos na era da “solução técnica” (antidepressivo, ansiolíticos, psicoterapia) para nossos problemas
morais. Assim, perde-se de vista a noção da responsabilidade individual. É como se, não fosse o “eu”, que tomasse as decisões – pelo menos as decisões erradas; já que as certas são motivo de orgulho, por isso se assume a autoria delas.

Para Dalrymple, é urgente encorajar a cada um de nós (consequentemente, a própria sociedade) a um verdadeiro exame de si mesmo, porque, em assim procedendo, chega-se a um genuíno autoconhecimento.

Para se autoconhecer é necessário ser sincero consigo mesmo, arcar com as consequências dos próprios atos, e ter a humildade para reconhecer que, sim, muitas coisas escapam do nosso controle, portanto, não dependem de nós.
Terceirizar responsabilidade não é caminho para autoconhecimento, mas para uma imaturidade sem fim.


[1] Gn 3.10-12, NVI.
[2] Femeeiro, o mesmo que mulherengo; devasso.
[3] SHAKESPEARE, William. Rei Lear. São Paulo, Martin Claret, 2003.

Nota do autor: Theodore Dalrymple baseia sua análise na tradução abaixo de Rei Lear, tradução esta que consta no livro “Evasivas Admiráveis – como a psicologia subverte a moralidade”, publicado no Brasil pela É realizações, em Janeiro de 2017.

*”Eis a sublime estupidez do mundo; quando nossa fortuna está abalada – muitas vezes pelos excessos de nossos próprios atos – culpamos o sol, a lua, as estrelas pelos nossos desastres; como se fôssemos canalhas por necessidade, idiotas por influência celeste; escroques, ladrões e traidores por comando do zodíaco; bêbados, mentirosos e adúlteros por forçada obediência a determinações dos planetas; como se toda a perversidade que há em nós fosse pura instigação divina. É a admirável desculpa do homem devasso – responsabiliza uma estrela por sua devassidão”.

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Elias Valentim, contador de números e de histórias.

Um comentário sobre “Cultura da irresponsabilidade

  1. Marly Valentin disse:

    Parabéns Elias Valentin pelo artigo, li todinho, muito bom mesmo, realmente está havendo muito discaso com a vida humana.
    Prossiga meu filho, Deus te abençoe!!

    Curtir

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