A natureza humana segundo Descartes e suas implicações epistemológicas

“Descartes propõe um ser humano centrado na própria capacidade de bom-senso”, Coronel.

Não se pode negar que a concepção contemporânea de homem foi fortemente influenciada pela modernidade, especialmente pela filosofia de René Descartes. Por isso, vale a pena expor essa noção, bem como encadear as principais implicações epistemológicas de separar a realidade em res cogitans (coisa pensante) e res extensa (coisa extensa ou material).

Segundo Descartes, a razão, entendida como a capacidade de julgar e discernir o que é verdadeiro, se apresenta como único elemento que efetivamente diferencia animais e humanos. Ultrapassar o corpo é natural ao homem, um atributo universalmente compartilhado, o qual deve mesmo ser tomado por critério.

Em Discurso do método[1], o filósofo esclarece a aparente discrepância entre diversidade de opiniões e universalidade da razão, argumentando que qualquer pluralidade só existe em função do uso de métodos inapropriados. O método adequado guia a razão até o conhecimento seguro[2]. Logo, não basta possuir razão: para que ela seja efetiva, é necessário conduzi-la por meio de um processo credível.

Descartes opõe-se ao ceticismo, confrontando seu relativismo e caráter incognoscível, ao mesmo tempo que o utiliza metodologicamente até às últimas consequências para, então, refutá-lo[3]. Na sua busca pela verdade, compreendeu ser necessário rejeitar tudo que fosse passível de dúvida, a fim de ver se, depois disso, não restaria algo que fosse completamente indubitável. Suspeita-se, duvida-se do que existe, até que se encontre uma certeza refratária ao questionamento[4]. Eis que surge o argumento do cogito, finalmente apontando para a possibilidade de um conhecimento seguro.

Tal argumento – preconizado pela célebre conclusão “penso, logo existo (sou)” – estabelece o fundamento para toda a filosofia cartesiana e, grosso modo, para a concepção de sujeito moderno. Ele reconhece como auto-evidente e inquestionável a necessidade de existir antes de duvidar[5]. Toda ideia verdadeira deve ser igualmente clara (sem obscurecimento) e distinta (sem confusão), como essa sentença categórica[6].

A ideia antropológica incide diretamente da visão epistemológica. Descartes propõe um ser humano centrado na própria capacidade de bom-senso, que utilizado de maneira metódica, faz emergir certezas, que por sua vez funcionam como alicerce para o auto-reconhecimento e para o conhecimento. Homem/homem e homem/mundo só interagem confiavelmente por intermédio da razão.


  1. DESCARTES, René. Discurso do Método. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.
  2. MARCONDES, Danilo. História da Filosofia: Dos pré-socráticos a Wittgenstein. 6ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 162.
  3. A dúvida hiperbólica.
  4. MARCONDES, 2001, p. 164-165.
  5. Posso duvidar de tudo, só não posso duvidar que sou um ser que duvida.
  6. ABRÃO, Bernadette Siqueira (Org.). A História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2004, p. 195-196.

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Fábio Coronel, professor e músico iludido. Idealizador do projeto Autonomia EaD | Divulgação Filosófica.

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