Mudança de opinião vs. conversão

“Conversão é mudança estrutural”, Valentim.

Recentemente li As confissões de um ex-libertário, de Rodrigo Constantino. Neste livro Constantino fala sobre o processo pelo qual passou que o fez mudar de libertário para liberal conservador. A paternidade, a leitura de intelectuais conservadores e muita reflexão fizeram-no perceber os “furos” da ideologia libertária.

Paralelamente, um amigo me disse que estava lendo As confissões, de Santo Agostinho, o que me motivou a reler tal (magna) obra. Uma questão veio à cabeça: qual a diferença entre mudança de opinião (o que ocorreu com Constantino) e conversão? (o que aconteceu com Agostinho). De pronto, quero deixar claro que não estou comparando, muito menos igualando os dois autores – pelo amor de Deus! Porém, me arrisco a esboçar uma resposta.

Mudar de opinião é mudar o modo de pensar. É ampliar o horizonte de consciência de tal maneira que o indivíduo se dá conta de que a ideia que defendia é parcial. E não apenas isso: de que está bem distante do todo; até pode estar errada. Para mudar de opinião é importante ter humildade em rever o pensamento, e quando necessário, modificá-lo; inclusive assumindo isso publicamente. Por óbvio, mudança de opinião provoca mudança de discurso e especialmente de comportamento.

A conversão é algo mais profundo. É uma mudança estrutural. Ao que Paulo chama em Romanos 12 de Renovação da Mente. Na conversão, entendimento e consciência são afetados. Do ponto de vista da teologia cristã ela é uma mudança de rota: tomar consciência de que a estrada na qual se está leva a um caminho errado e dar meia-volta, pegar o caminho que conduzirá ao destino correto.

Para além do teológico, temos mais que isso. Conversão é um arrependimento genuíno e sincero que possui três aspectos: (1) mudança intelectual (a qual pode ser confundida com mudança de opinião, porém é algo de outra ordem; mais entranhável), um pesar pelos erros cometidos; por ter pecado contra Deus. (2) Mudança volitiva, isto é, uma modificação da vontade, que tem por decorrência o propósito de mudar de vida. E por fim, a conversão é (3) mudança de natureza, ou melhor, é a assunção de outra natureza. A natureza adâmica (pecaminosa) permanece. O convertido passa a ter dentro de si outra essência, a divina, que restaura e suplanta a imagem de Deus que a queda corrompeu.

Ademais, se a conversão tem aspectos, também tem tipos. Gostaria de enumerar pelo menos três:

– 1 de natureza intelectual

Para exemplificar, destaco a conversão de três personagens, distantes no tempo e de culturas bem diversas. Fica a dica para uma pesquisa mais acurada, pois neste espaço não dá para ser mais minucioso sobre a vida deles.

1.1 Conversão de Santo Agostinho de Hipona

Agostinho em suas Confissões, numa linguagem encantadora – num estilo literário próprio, numa biografia em forma de oração, mostra uma consciência que examina a si mesma e dá uma lição de autoconhecimento –, narra como ocorreu sua conversão. Ele mostra que até os descaminhos da vida o guiaram à vida eterna.

A conversão passou por fases. Com dezessete anos, na ocasião em que foi estudar retórica em Cartago, se torna maniqueísta. Mas afasta-se dessa filosofia aos poucos, quando começa a fazer certas perguntas para as quais seus mestres não tinham respostas satisfatórias. Da fase maniqueísta segue a fase cética, depois a fase neoplatônica, que acaba sendo uma ponte para o cristianismo.

O processo de Agostinho durou cerca de 14 anos. A conversão para valer aconteceu em Milão, no ano 386 d.C. Subitamente ouviu a voz de uma criança, não soube distinguir se de menino ou menina, que cantava: “toma e lê”. Ao abrir a Bíblia a esmo, cai no texto de Romanos 13:13-14: “Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não tenhais cuidado da carne em suas concupiscências”.

Depois de muita busca Agostinho encontrou repouso para o seu coração inquieto, saciou a sede de sua alma e pôde desfrutar do amor de Deus, a Beleza tão antiga e tão nova.

1.2 Conversão de C.S. Lewis

Se a conversão de Agostinho ocorreu no século IV, falemos agora da conversão de um irlandês, professor de literatura, que viveu no século XX. C.S. Lewis, neto de pastor, na adolescência, pouco a pouco, foi perdendo a fé, enveredando-se pelo ateísmo.

À época foi influenciado por Freud e adotou a noção de que a fé é fruto do sentimento de desamparo, é um desejo infantil de abrigo. Com o passar do tempo, Lewis começa a se dar conta de que os autores que mais admirava eram religiosos, mais exatamente cristãos. Gente do calibre do próprio Agostinho, Tomás de Aquino, Dante Alighieri, George MacDonald, John Milton e G.K. Chesterton. E se indaga: por que essas pessoas tão inteligentes sãos religiosas?

Após dedicada investigação intelectual, abandona o ateísmo e se torna teísta. Seu teísmo ainda não era a mesma coisa que cristianismo. Numa conversa com Tolkien, que varou a madrugada, algo extraordinário ocorreu na mente de Lewis. Ele percebeu o cristianismo como Mito Verdadeiro. Tolkien pôde expor que os mitos universais, numa linguagem fantasiosa e cativante, contêm verdades profundas que expandem a consciência do leitor, e que não seriam captadas se fossem ditas em outra linguagem.

A distinção do cristianismo está ancorada no fato de que ele trata de um Mito Real, pois conta uma história que aconteceu. Esta compreensão foi um ponto de virada. Pode-se afirmar que o processo intelectual da conversão de Lewis passou em primeiro lugar pela crença em Deus, depois pela crença no cristianismo como “Mito Verdadeiro”, em seguida, pela fé na divindade de Cristo, e por último, pela admissão pública da fé cristã.

1.3 Conversão do irmão Medhi

O irmão Medhi é um jovem marroquino do século XXI. Sua conversão também se deu pela via intelectual. Ele, filho da maior autoridade islâmica do Marrocos, se dedicou a estudar teologia islâmica, numa faculdade islâmica. Lá, recebeu de um professor o seguinte exercício: ler o Evangelho de Lucas em comparação com o Alcorão para provar a preeminência do Alcorão sobre a Bíblia – detalhe: no Marrocos, Bíblias são proibidas. Cópias, só nas universidades. O professor queria reforçar a ojeriza de Medhi ao Evangelho, Mas é o contrário que se sucede.

À medida que ele estuda o Evangelho de Lucas, mais se dá conta da superioridade da Bíblia. Lendo sobre Jesus, vai conhecendo o Deus de graça, amor, perdão. O pastor que sai à procura da ovelha que se perde, o pai rejeitado que abraça e beija o filho arrependido. A conversão traz para o irmão sérias consequências, tais como: ter de fugir do país, pedir refúgio ao Brasil, ficar distante dos familiares, não poder retornar à terra natal. Se voltasse para o Marrocos, correria o risco de ser assassinato. Todas as adversidades são recompensadas pela alegria que encontrou em Deus.

– 2 de natureza emocional

Quem já frequentou uma igreja evangélica – sobretudo de matriz pentecostal – já ouviu a expressão: “quem não vem pelo amor, vem pelo dor”. E há sim um tipo de conversão que se dá em decorrência de sofrimentos vividos. Lewis mesmo disse: “O sofrimento é o megafone de Deus para um mundo ensurdecido”.

O sofrimento escancara a fragilidade humana. Mostra que a pseudo-onipotência humana é um negócio tão bobo que nem se justifica. O sofrimento tem o poder de nos abalar emocionalmente e nos deixar mais suscetíveis a ouvir o que a vida grita, e nossos ouvidos moucos, não ouvem. Recordo-me de um rapaz que morava próximo a minha casa, arrogante, com espirito aventureiro, desprezava os conselhos dos pais, maltratava a vizinhança. Um dia sofreu acidente de moto. Sobreviveu. Hoje é cadeirante. O drama pessoal o obrigou a revisar a própria vida, o que culminou em sua conversão religiosa.

Nos Evangelhos, existem relatos de muitos desvalidos que se converteram porque encontraram Cristo em momentos de dor, e foram curados por Ele. E emocionalmente tocados, de modo que, dentro deles, algo mudou, o interior foi transformado não por uma mera mudança de opinião, mas por uma metanóia.

3 de natureza teofânica

Moisés era um pastor de ovelha que fugira do Egito e levava uma vida sossegada em Midiã, até que um dia uma ovelha se perdeu na montanha. Ao procurá-la, repentinamente uma voz falou com ele. Era a voz do Eu Sou. Diante dela Moisés se dobrou, converteu-se, e recebeu uma missão que mudou a sua vida para sempre.

Antes de Moisés, Abrão era um homem que também tinha vida pacata, até que a Voz lhe encontrou, deu-lhe uma ordem que mudou não apenas sua vida, mas a história. É o que creem as três maiores religiões monoteístas do mundo (judaísmo, cristianismo e islamismo).

Ainda na Bíblia, só que no Novo Testamento, Paulo teve um encontro inesperado e transformador: a Voz (agora do Cristo ressurreto) falou com ele. Esse encontro mudou por completo a vida de Paulo. De perseguidor passou a perseguido, por causa de Cristo.

Esses três exemplos mostram um tipo de conversão teofânica. A divindade foi inesperadamente ao encontro desses homens, ao passo que esses encontros provocaram uma mudança de rota na vida deles. Trata-se de uma transformação interior que uma mera mudança de opinião não seria capaz de provocar.

Para muitos olhos contemporâneos, aparições teofânicas soam como alucinação de uma mente confusa, ou resquícios de crendice pré-moderna. Todavia, pululam relatos de aparições teofânicas pelo mundo.

O já citado irmão Medhi, por exemplo, conta a experiência com uma senhora egípcia. Muçulmana fervorosa, sonhou com um homem vestido de branco, aconselhando a procurar uma igreja. Ela foi, mas não foi bem recebida. Essa mulher conta o sonho que tivera ao marido. Revoltado, o marido decide enterrá-la viva. De quebra, enterra a filha de 11 anos junto. Após três dias vizinhos ouvem os gritos das duas, que estavam sepultadas no quintal, e as socorrem. A notícia se espalha. Quando os repórteres perguntam a mulher, a filha a encoraja a dizer o que houve nesses três dias. Ela diz: “nestes três dias fomos alimentadas por um homem de branco, o mesmo que me apareceu em sonho. Apresentou-se como Jesus de Nazaré, mostrou as mãos feridas pelas quais traspassava um facho de luz branca”.


Sinceramente fico receoso quando alguém diz que nunca muda de opinião. Passam-se os anos, passam-se até décadas, e a pessoa se orgulha de nunca ter mudado. Será que ela não leu nada? Não teve nenhuma experiência marcante? Nenhum encontro transformador?

Mudar de opinião é sinal de humildade, honestidade e investigação. Não obstante, não é a mesma coisa que conversão. Conversão é algo de outra monta. É mais profundo e valioso. Modifica o intimo do coração. Faz com que o convertido esteja disposto a defender sua fé, mesmo que sua vida esteja em risco, como tem acontecido com o irmão Medhi ou com a mulher muçulmana. A simples mudança de opinião não daria a força moral necessária para tal disposição.

Talvez o fato mais importante a respeito da conversão seja que ela possibilita ao convertido olhar para a história de sua vida numa perspectiva maior, como parte da história que Deus está escrevendo. E nesta história, mesmo os erros pessoais cometidos, tiveram utilidade. Apesar deles, Deus habilmente extraiu o bem.

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Elias Valentim, contador de números e de histórias.

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