Moisés e o monoteísmo

“É o estudo social mais maduro de Freud”, Coronel.

Moisés e o monoteísmo¹ é a obra mais amadurecida dos textos de psicologia social de Sigmund Freud. À medida que a psicanálise foi se consolidando como um saber “científico”, logo ocorreu a possibilidade de seu aproveitamento na explicação dos elementos sociais, dada a paridade entre as condutas neuróticas (objeto da psicanálise) e os comportamentos ditos normais.

O artigo de Freud está unido a inquietações frequentes sobre a origem da religião, e sobre a questão judaica. Os pressupostos epistemológicos do autor são muito claros: baseiam-se no pensamento histórico e crítico, inteiramente vinculado à tendência intelectual de sua época, embora depurado pela genialidade de uma grande mente.

Inicialmente o livro introduz um olhar especulativo sobre os dados históricos. Freud busca destacar os pontos principais que sugeririam que a figura de Moisés bem que poderia ser egípcia, conclusão completamente diversa da preconizada pela tradição judaica. De fato, não obstante a vicissitude, nunca se havia conjeturado seriamente esta personagem como estrangeira. Para o psicanalista, a ascendência egípcia do nome Moisés, a lenda de seu nascimento (à luz dos princípios psicanalíticos), e as diferentes saídas que tal hipótese permite são referentes satisfatórios para uma releitura da história do monoteísmo.

Partindo da pressuposição de ser Moisés na verdade um egípcio, Freud inter-relaciona sua suposta nacionalidade ao experimento monoteísta do faraó Akhenaten (religião do antigo líder egípcio Aten), e mais ao monoteísmo hebreu, sendo que este seria uma apropriação posterior dos sacerdotes judaicos admiradores da abortada religião de Akhenaten e Moisés. A empreitada de Freud é completada na identificação de bifurcações na histórica hebraica. Ela só pode ser bem recuperada se ponderada a existência de dois povos (egípcios e cananeus), dois reinos (norte e sul), dois nomes para Deus (que fazem referência a duas tradições religiosas no seio da história judaica), e por fim, a duas religiões e dois líderes, primeiramente ao Egito e depois à Canaã.

Na segunda seção de Moisés e o monoteísmo, o psicólogo revisa os subsídios históricos antes apanhados pretendendo agora esclarecer por que o monoteísmo, de rejeitado, passou a ser absoluto. Recorre então à teoria psicanalítica como interpretação apropriada. A questão é: o espaço histórico entre a condenação e a adesão do monoteísmo é um elemento paralelo ao espaço existente nas neuroses (clínicas), no retorno do reprimido.

Como já sabemos, a dinâmica psíquica da infância dirige traumas ao inconsciente por autoconservação, e tais ocasiões podem ser revividas em fases futuras da vida sob a roupagem de sintoma, fobia, obsessão ou outra patologia. No campo social, esse trauma pode ser interpretado como o sentimento provocado pelo assassinato do pai primevo (totêmico). Desde o livro Totem e tabu (1913) mantem-se o entendimento de que a religião é uma neurose reencarnada do assassinato de um remoto líder na horda primeva (conceito baseado em Darwin), repassada filogeneticamente às gerações como culpa. Destarte, o espaço relacionado ao retorno do monoteísmo, provavelmente, é concernente ao assassinato de Moisés, transformado em culpa, e perpassado filogeneticamente, culturalmente, e terminada em religião.

Na terceira e última divisão, o psicanalista pretende confirmar sua hipótese expondo o efeito psicológico do monoteísmo de Moisés, explicando assim seu estilo absoluto e tirânico no distintivo judaico. Para consequência pontua que a boa estima dos Judeus quanto a si mesmos deveu-se exatamente ao atrelamento com essa ideia original acerca de Deus, sua decorrência na doutrina da eleição, e na prioridade dada ao pensamento abstrato, em vez do mero contentamento dos instintos. Tudo isso beneficiou um tipo de administração libidinal que, de tão oportuna, impregnou culturalmente.


  1. Cf. FREUD, Sigmund. Moisés e o monoteísmo. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, Volume XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 2006, p. 13-150.

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Fábio Coronel, professor e músico iludido. Idealizador do projeto Autonomia EaD | Divulgação Filosófica.

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