O futuro de uma ilusão

“É o anseio de acolhida, amor e amparo para com o pai que leva o homem a crer em um Pai Eterno”[Paráfrase], Freud .

Freud era um judeu nominal, e embora ateu, sempre teve como preocupação explicar as práticas religiosas, sobretudo a partir do método de sua psicologia. Resenharei aqui a primeira obra a respeito do tema: O futuro de uma ilusão (1928).

Baseado nos conhecimentos que produziu por seu método psicológico, Freud delineou nessa obra uma inquietação com as várias mutações que as sociedades estariam sofrendo no processo civilizatório. Por civilização, o psicanalista contempla tudo o que difere o ser humano dos animais. Assim sendo, duas características se sobressaem: a ciência decorrida da exploração da natureza; e as ciências estabelecidas para regular o convívio social.

As leis de convivência exercem o trabalho de resguardar a civilização contra o próprio indivíduo, que a despeito de não poder viver isoladamente, precisa sacrificar sua individualidade para adequar-se à coletividade. Freud defende que a civilização é produto de uma minoria detentora de conhecimentos científicos e legais, estabelecida sob uma maioria que não sabia como aproveitar os recursos da natureza para uma vida confortável. Por isso relações de poder foram estabelecidas, poder usado no convencimento de que há uma obrigação em controlar os instintos para o usufruto da vida social.

Apesar de tudo, é controvertida a ideia de que abolida a repressão dos instintos as sociedades seriam harmônicas, e que portanto os privilégios de uns acabariam. Os indivíduos possuem disposições destrutivas e antissociais, daí vem a necessidade das regras de coação. Segundo Freud, a grande dificuldade causada pela civilização não está propriamente na desigualdade de recursos, mas na desigualdade intelectual. Ela que impõe a necessidade de lideranças para o comando das massas, de exemplos pessoais da repressão instintual, já que os homens não se sacrificam por disposição natural. Para o autor, toda civilização está fundada “numa compulsão a trabalhar e numa renúncia ao instinto”, e isso não é natural. É preciso que os homens sejam psicologicamente persuadidos a agirem assim.

Desde o início da vida o homem precisa superar sua condição animal, isto é, segregar seus instintos. As primeiras abnegações dos instintos atribuídas em nome da civilização são: canibalismo, incesto e desejo de eliminar os iguais. Boa parte das pessoas contém seus desejos, contudo às vezes atendem outros desejos que comprometem os semelhantes, que podem, de certa forma, ser escondidos da punição. Isso evidencia a incompetência do humano em ser inteiramente moralizado.

Dentre outras coisas, a sociedade foi “inventada” como maneira de proteger os sujeitos dos fenômenos da natureza. À medida que a natureza foge do controle e mostra a fraqueza e limitação humana, a sensação é de abandono. A sociedade pretende resgatar o valor que o homem dá a si mesmo, em contrapartida ao poder avassalador da natureza; quer renovar sua autoestima. E pelo mesmo motivo, a fim de mitigar o sofrimento humano, desde a antiguidade, foi designada a imagem de um pai cósmico, universal, que deve ser adorado, amado, temido, que pode punir, mas também proteger. Toda dor um dia será recompensada, no além-morte. Os acontecimentos que se apresentam são resultado da vontade de um ser superior, invisível, mas que escuta suas criaturas nos momentos de agonia. Logo, as noções religiosas, tal como as outras concretizações da sociedade, surgiram pelo imperativo de se resguardar da potência da natureza, como também para legitimar as repressões que sustentam as desigualdades.

Em Freud a figura “Deus” é empregada para suprir a figura do pai. Como na infância a criança sente-se abrigada pelo pai, e quando adulta encontra-se abandonada, o homem acaba por postular a tutela de alguém poderoso, mesmo que a consequência seja transferir poderes a alguém imaginário. As noções religiosas possuem acepção apenas psicológica. Não há qualquer ideia ou argumento que a racionalidade acolha como prova da veracidade dos preceitos religiosos. As igrejas apoiam que as doutrinas estão para além da razão. As noções religiosas têm raiz psíquica, são ilusões formadas pelo desejo do homem de, quando adulto, permanecer sob a proteção de alguém enérgico o suficiente. A vida é rude e seguida de muita desigualdade nas inter-relações; o ser humano encontra forças para tolerá-la crendo na existência de um direcionamento maior ou divino.

É o anseio de acolhida, amor e amparo para com o pai que leva o homem a crer num Pai Eterno. Mesmo sendo uma ilusão que a psique individual alimenta, não chega a ser considerado por Freud como um erro. São ilusões porque são insuscetíveis a provas, se derivam dos desejos humanos, não podem ser cientificamente comprovadas. Sobre as várias pessoas que descobrem forças na religião para superar os problemas da vida, Freud enfatiza que, no fundo, ainda assim a sociedade corre riscos reforçando a ilusão da existência de Deus.

Não obstante a religião ter cooperado para o estabelecimento da civilização, especialmente para conter os instintos contrários à socialização, o primeiro objetivo dela precisaria ser o de harmonizar o homem com as condições impostas pela vida, o que nunca aconteceu. Os emissários da religião só obtiveram seguidores, disseminando a figura de um Deus forte, e que pode punir. Aqui está o motivo dos crentes não se sentirem plenamente realizados com esse pai.

A religião preconizou a ideia de que a vida terrena é um padecimento que só pode ter um fim com a morte, com a promessa da vida eterna. Mesmo assim, só poderia usufruir dessa plenitude os que não apresentassem pecados. A ideia de que Deus cobra penitências para perdoar os pecadores faz o ser humano impotente, e os coloca sob risco da possibilidade de pecar novamente. Para que a graça de Deus seja conferida é imprescindível pecar, e não é nada reconfortante pensar que a punição de Deus pode ocorrer tanto nesta vida quanto em outra.


*FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 12-71. 

ede0755338e6a4e41de86c09614db4f9_decorative-underline-clipart-clipartfest-drawing-art-_370-370

WhatsApp Image 2018-11-06 at 15.14.36

Fábio Coronel, professor e músico iludido. Idealizador do projeto Autonomia EaD | Divulgação Filosófica.

2 comentários sobre “O futuro de uma ilusão

  1. Miriã Sena disse:

    Apesar de não concordar totalmente com o pensamento freudiano, o texto está impecável!
    Muito bem elaborado!
    Me fez lembrar Michel Foucault e Guy Debord.
    Só para pensar “O espetáculo é a conservação da inconsciência”
    Debord (p.21,1997)

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s