Psicologia ontem e hoje

“Em menos de um século a humanidade foi da máquina a vapor à viagens espaciais”, Coronel.

O século XIX foi a época em que o capitalismo ditou um ritmo econômico nunca antes visto na história da humanidade. Esse sistema expandiu mercados, criou necessidades de consumo, apresentou novas matérias-primas. O interesse pelo lucro induziu diferentes maneiras de se produzir, de modo que se faziam mais produtos, em muito menos tempo. Assim o desenvolvimento tecnológico se impôs, e logo a máquina estabeleceu o novo paradigma para as relações econômicas.

Pense bem, durante milhares de anos as civilizações cultivaram a terra contando com tração animal, e num intervalo de aproximadamente cem anos, máquinas podiam fazer o mesmo serviço, em tempo recorde. Bom, o que se quer destacar é a mudança provocada pela invenção da máquina. Ela foi tão abrangente que definiu o modo de pensar de uma época!

A Psicologia surge neste contexto. Entendia-se, àquele cenário, que para compreender o psiquismo do homem era então preciso conhecer a máquina de pensar, o cérebro. Talvez por consequência disso ela nos seus primórdios juntou-se aos esforços da Fisiologia, Neuroanatomia e Neurofisiologia, disciplinas do ramo das ciências médicas.

Contudo à medida que a Psicologia foi buscando independência epistemológica seus padrões passaram a exigir: (1) definição de um objeto de estudo, como vida psíquica, consciência ou comportamento – não se tinha tanta clareza ainda da noção de subjetividade; (2) diferenciação entre abordagens filosóficas e ciências médicas; (3) formulação de métodos específicos; e (4) formulação de um corpo de teorias. Embora a Psicologia tenha nascido na Alemanha, a culminância desse processo radical, se dá longe, em maior grau nos Estados Unidos.

A partir do século XX ocorrem extraordinárias mudanças no âmbito da biociência, da arte, da política, mas, especialmente, na área da tecnologia da informação-comunicação. A velocidade como tudo transcorreu foi decisiva para moldar as ações das sociedades de hoje, que, de industriais, passaram à pós-industriais. Em menos de um século a humanidade foi da máquina a vapor à empreitadas como viagens espaciais, energia atômica e internet.

Afora essas circunstâncias sociais, os indivíduos também se alteraram. Perderam as referências ideológicas, descobriram-se sujeitos instáveis, fragmentados e incompletos do ponto de vista psíquico. Hall cita cinco acontecimentos intelectuais que cooperaram para tanto, a saber,

  • O materialismo-histórico (de Karl Marx);
  • A psicanálise (de Sigmund Freud);
  • A linguística (de Ferdinand Saussure);
  • O “poder disciplinar” (de Michel Foucault);
  • O feminismo (de modo geral);

Esses estudos revelaram que todo sujeito encontra-se restrito às condições histórico-sociais; separado da compreensão de sua totalidade psíquica; limitado discursivamente a um sistema linguístico; traçado por instituições reguladoras; e mergulhado numa luta política relativa aos gêneros.

Resultado, as principais correntes psicológicas de hoje se esforçam exatamente em refletir e intervir neste novo sujeito, portador de uma nova subjetividade. Esse ente descentrado e complexo torna-se um desafio para as ciências humanas, impondo aos estudos psicológicos certos enfoques para lidar bem com uma realidade complexa.

A Psicologia com pretensões científicas do século XIX já nasce diversa, e sua atuação desde o século XX segue a mesma tendência. Mas a despeito das novas necessidades do sujeito moderno, a Psicologia permanece dividida entre duas linhas mestras, o que Teles chamou de Sistema Fechado e Sistema Aberto. O primeiro requer o método experimental no objetivo de melhorar o desempenho do Homem, isto é, seu funcionamento mecânico; O segundo pensa o Homem em sua integralidade, na busca de sua autorrealização.


  • BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2001.
  • HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
  • TELES, Maria Luiza Silveira. O que é psicologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.

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Fábio Coronel, professor e músico iludido. Idealizador do projeto Autonomia EaD | Divulgação Filosófica.

2 comentários sobre “Psicologia ontem e hoje

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