Falemos sobre Olavo de Carvalho…

“Em relação ao Olavo, me vejo enlaçado numa dubiedade…“, Valentim.

Saí do seminário em 2005, um tanto confuso. Continuava cristão. Místico. Crente em Deus – pois para mim, nada vem do nada, e há sim uma causa não-causada, uma inteligência que moldou o universo, um Ser Pessoal que se dá a conhecer. Porém me questionava sobre a exclusividade cristã da revelação divina. Será que o cristianismo é superior as demais religiões? À época, pensava que era impossível determinar. Todas eram iguais.

Naquele ano, por acaso conheci o Olavo de Carvalho, fazendo a esmo uma pesquisa no então site de busca “Cadê”. Li um artigo em que o Olavo desancava o Leonardo Boff. De início, tive ojeriza a ele por atacar o Boff – este era meu teólogo brasileiro preferido, sobretudo os textos a respeito de espiritualidade – e pela linguagem indelicada que mesclava erudição com coloquialismo, embora fugisse da linguagem acadêmica, a qual desde sempre achei insossa, sem vida, chata e pedante.

O Olavo me ajudou a sair da confusão mental, que em grande medida se devia a uma atitude cética de achar que não se pode ter certeza de nada: ao mostrar os exageros e erros do cientificismo, ao mostrar o domínio da esquerda nos órgãos de produção cultural, principalmente, ao me mostrar que os Engenheiros do Havaí estavam equivocados quando cantaram que “é inútil ter certeza”. Isto já é certeza! – todo argumento contra a verdade objetiva é autocontraditório. Se a verdade não existe, isto é uma verdade, logo, ela existe.

Além disso, através do Olavo pude conhecer uma bibliografia sonegada no Brasil. Nomes tais como Eric Voegelin, L. Szondi, Schuon, René Guenon, Minh Dung, Mendo Castro, Lafelle, entre outros.

Lendo o Nova Era e a Revolução Cultural percebi que estava diante de um autor perspicaz. Em 2006, se não me engano, Olavo de Carvalho começou o programa True Outspeak. Assisti quase todos. Também imergi no site dele, li todos os artigos que, anos depois, o Felipe Moura Brasil iria reunir para dar vida Ao Mínimo (…), livro best seller.

Com ele também aprendi (pode nem ser um pensamento original dele, mas foi com ele que aprendi) a importância da literatura para formação do imaginário, e para previamente preparar o intelecto para o estudo da filosofia. A literatura apresenta possibilidades de existência, isto é, vidas possíveis, experiências que jamais viveremos, que nos humanizam, nos deixam humildes e mais hábeis para notar as sutilezas, ambiguidades e complexidades da vida.

Embora me considere em “dívida” de gratidão para com o Olavo, não fui, não sou, não serei aluno dele.

É inegável que no Brasil dos dias correntes há uma direita que quer sair do anonimato, que não aceita mais ser alijada do debate político e cultural. Esta direita quer ser ouvida, pois julga que tem alguma contribuição a dar. Ainda não tem grande presença nas Universidades nem na mídia, mas graças à internet, está-se fazendo ouvir.

O Olavo foi, juntamente com uma série de outros agentes e fatores, uma das personagens centrais no surgimento dessa nova direita. Entretanto não dá para negar o problema de que ele e seus asseclas usam uma linguagem beligerante, por vezes, binária demais, algo amalucada. Seus alunos youtubers imitam-o em quase tudo, nos cacoetes, nos palavrões, nos trocadilhos com os nomes dos adversários, alguns chegam ao extremo de se tornarem fumantes.

É um comportamento semelhante ao de seita; de culto à personalidade. Vai na contramão do que ele apregoa sobre a força da consciência individual face a qualquer totalitarismo.

Mas o pior de tudo é que ele muda de discurso com frequência. Lembro-me de ouvi-lo no True Outspeak falar do preconceito que os evangélicos sofriam no Brasil. Ele inclusive saiu em defesa do Júlio Severo – um evangélico ultrafundamentalista, reacionário (que pleonasmo!) –, ajudando o Severo financeiramente, até mesmo, salvo engano, a fugir do Brasil por causa de perseguições de grupos LGBTI.

Com espanto li posts recentes do Olavo, mais precisamente do ano passado, alcunhando os evangélicos de evanjeques… Além disso, afirmando que estes fizeram mais mal ao Brasil do que a esquerda inteira. O Olavo entrou numa onda de negar a inquisição, dizendo que esta com sua alegada mortandade é obra de propaganda negativa de protestantes contra o catolicismo. Chegou a dizer que Lutero e Calvino eram cafajestes, monstros.

Digo que ele muda o discurso com frequência porque me surpreendi ao assisti no Youtube a entrevista que ele deu para a Leda Nagle faz duas semanas, chamando os evangélicos de irmãos separados, conforme mesmo designa a Igreja Católica, e dizendo que no Brasil os evangélicos são vítimas diárias de preconceito. Hum!?

Mais que isso, a biografia dele é cheia de lances obscuros e certas contradições. Ele já foi internado por surto psicótico, teve várias esposas, participou de orgias, foi membro de seita e de Tarica islâmica; estudioso de astrologia, é fumante inveterado e atesta que tal vício não faz mal para saúde.

De repente, tornou-se católico praticante. Um tanto draconiano. Pior, formador de youtubers católicos desbocados, fanáticos e metidos a sabichões. Verdadeiros hipócritas, no sentido que Cristo emprega esta palavra nos Evangelhos.

Em relação ao Olavo, me vejo enlaçado numa dubiedade: admiro o pensador que me ajudou a sair de uma tremenda confusão mental. Mas reprovo o mitômano contraditório, criador de tantas outras grandes confusões mentais.

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Elias Valentim, contador de números e de histórias.

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