Nova marcha contra a guitarra elétrica

“É necessário desenvolver o próprio caminho sem viver à sombra de outra cultura”, Nunes.

Vi, dia desses, um trio executar com precisão canções de rock and roll compostas em décadas distintas. Aquele som que todo mundo conhece. Eles eram bons no que faziam. Mas eu cheguei a um nível de “chatice” tão grande, que não conseguia desver o que percebia na plateia. Um monte de gente feliz por se sentir inglês ou americano. Triste, trágico.

Parecíamos – porque eu também estava lá – um bando de macacos de circo reproduzindo a pantomima de quem há quase dois séculos domina o mundo bélica, geográfica, cultural e economicamente. As pessoas se entreolhavam sorridentes, cantando o “embromation” e “caralho, olha a gente aqui, tendo a oportunidade de não ser um ‘fucking’ brasileiro”.

Pode ser divertido, mas é claro que não faz muito sentido. A língua não é a nossa, as vestes não são as nossas, o jeito de cantar rasgando a garganta não é o nosso. A revolta dos gestos nem é a nossa revolta. Isso talvez explique também aquelas pessoas de direita que “adoram” Rage Against The Machine ou Led Zeppelin. Estão ali reproduzindo os gestos, mas sem entender absolutamente nada.

Talvez não fosse coincidência o fato de o público presente ser quase todo branco. Mas é isto: as máscaras oferecidas pela indústria cultural vinda de lá das bandas no norte são muito sedutoras. Aqui a gente se odeia, porque foi ensinada a se odiar, e a “escapatória”, que na verdade é uma arapuca, é vestir essas máscaras.

O branco brasileiro reproduz o discurso dos rednecks dos EUA. Sem mencionar a onda Alan Jackson, que pegou e não não sai mais. Sendo religioso, então, é como se sentisse um personagem da série 7th Heaven, de meados dos anos 90. Inclusive igrejas tradicionais do Brasil imitam as igrejas brancas de lá. Até mesmo as canções anglófonas são traduzidas e viram hinos aqui. Já as igrejas pentecostais daqui imitam as igrejas negras de lá. O negro não religioso, aliás, só é aceito por essa indústria se vestir as roupas largas do basketball, andar travado, gesticular como os caras dos clipes musicais e curtir ou fazer rap. Tranças ou dreadlocks compõem o estilo. Quem for gay, nessa lógica das máscaras, só é enxergado se for hiper consumidor, ostentar grana e fizer o estilo machinho. Se for de periferia e afeminado, será logo descartado. Mulheres precisam ser a Beyoncé, a Madonna ou qualquer outra lacradora empresarial. Caso contrário, se for uma trabalhadora de padaria ou de serviço de limpeza de um shopping, é tratada como uma mesinha de canto ou um objeto em que ninguém repara muito e que quase serve pra alguma coisa.

O fim disso são a frustração total e a continuidade do desprezo por si mesmo.

Não digo que a solução seja fanaticamente evitar todo o contato com essa cultura, até porque é impossível e porque há muita coisa boa de lá. Mas é preciso urgentemente se desamericanizar no que for possível. Quanto mais a gente se americaniza, mais cava o próprio buraco. De mesmo modo, não digo que a solução seja um ufanismo bobo e torto de quem tem “orgulho de ser brasileiro”, mas é necessário desenvolver o próprio caminho sem viver à sombra de outra cultura, ainda mais uma que usa as produções artísticas como meio de dominação dos povos.

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El-Buainin Nunes, professor peladeiro, mas não o contrário. 

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