Tolstói contra o comezinho

“Encontrou sentido ao morrer. A sua vida teria sido bem melhor se tivesse encontrado antes”, Valentim. 

Na novela A Morte de Ivan Ilitch, Tolstói narra a história de um alto funcionário público, relativamente bem-sucedido, um homem equilibrado e circunspecto que se esmerava em resolver seus problemas de modo amigável, desprendido e correto, mantendo-se na linha, com postura sóbria.

Sem grande paixão conheceu Praskóvia Fiódorovna, moça bonita, de família nobre, simpática, ajuizada e dona de uma pequena fortuna. Desposou-a por dois motivos: a satisfação dos seus desejos e a consideração das pessoas da alta sociedade.

Os primeiros dias de casados, com suas carícias e novidades, foram alegres. Depois de certo tempo, mais exatamente quando da gestação de Lisa, Praskóvia tornou-se um tanto quanto ranzinza, ciumenta e carente de atenção; à medida que os dias se passavam ela ficava cada vez mais irritadiça, perturbando assim o projeto de existência amena de seu cônjuge.

Ivan, para fugir do mau humor e dos queixumes constantes dela, adotou o escapismo como estratégia: convidava os amigos para jogar cartas, ia ao clube, enfim, exerceu jeitos variados para se ausentar de casa. O que, naturalmente, aumentou ainda mais a tensão matrimonial. Ela requeria atenção absoluta! Ele, ao notar que “a fera não seria domada”; refugiou-se especialmente no trabalho, pois a única coisa que estabelecia consenso entre os dois era as necessidades profissionais.

Ivan Ilitch consegue uma promoção que lhe permite levar a família para morar numa residência melhor. Tudo transcorria dentro do ideal que ele traçara: facilmente, agradavelmente e corretamente.

Não obstante às promoções profissionais e pessoais, subitamente – como subitamente as desgraças sobrevêm –, Ivan é acometido por uma doença traiçoeira, de diagnóstico inexato, cujos muitos médicos consultados não conseguiram determinar. Em casa, cenas de fúria por parte dele tornam-se frequentes. No paroxismo da dor, incomodava-lhe a indiferença da família, sobretudo da esposa e da filha, as quais estavam mais envoltas com os afazeres cotidianos, com festas, danças, jantares finos, conversas, compras, do que interessadas na aflição que sua doença causava.

As aflições de Ilitch foram pelo menos atenuadas com a chegada do criado, Guerássim, um jovem sadio e cheio de energia. Sua alegria de viver não incomodava Ivan, que se sentia aborrecido com a das demais pessoas, talvez porque em Guerássim, encontrava-se a graça de uma pessoa interessada em mitigar sua vida.

Percebendo que seus dias estavam se encurtando rapidamente; recorre à capacidade propriamente humana de perscrutar a sua consciência, examinar a si mesmo, julgar os próprios atos. Pondo dessa sorte a vida em revista chega à conclusão de que sua existência fora marcada por uma conduta correta, mas vazia e sem sentido. Nos últimos instantes, dá-se conta de que isso poderia ser reparado e, defrontando-se com a perspectiva da morte, descobre o sentido purificador do sofrimento que lhe permite, no morrer, inflar a vida de sentido. A morte não tem mais para ele o peso da dor. Falece com a sensação de contentamento e exclamando: que alegria!

Destacam-se na vida de Ivan Ilitch três comportamentos que podem representar a realidade de muitos homens de hoje: (1) A fuga dos problemas familiares; (2) A sujeição na busca pelo prestígio social; e (3) A hipocrisia de uma vida inautêntica. 

Em seus instantes finais Ivan encontrou o sentido, encontrou o sentido ao morrer. A sua vida teria sido bem melhor se tivesse encontrado antes.

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Elias Valentim, contador de números e de histórias.

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