Deus no limite da linguagem

“A linguagem é a casa do ser”, Heidegger.

Heidegger utilizou-se da metáfora da “casa” para falar sobre a relação entre a linguagem e o ser. Em suas palavras: “A linguagem é a casa do ser”. Entretanto, uma casa pode ser tanto albergue quanto cárcere; pode ser símbolo de proteção ou de opressão; pode liberar, mas, também, pode reter.

É claro que se não lêssemos o contexto em que essa frase foi dita, poderíamos concordar com ela e ainda assim encontrar legitimação tanto para a ideia de albergue quanto de cárcere; de proteção ou mesmo de opressão.

O próprio Platão e a tradição ocidental metafísica que nele se inspira não teria dificuldades em aceitar tal assertiva. Mas, parece ser o modo como se compreende o papel da casa na metáfora que faz surgir duas tradições amplamente distintas e que pensaram e ainda pensam Deus dentro de suas respectivas categorias.

Uma dessas tradições, a mais antiga, acostumou-se a valorizar mais a casa do que as pessoas que nela vivem. É quase como se afirmasse que a própria casa traduz fielmente as pessoas que nela estão. Outra tradição, mais nova, deseja focar nas pessoas e tende a considerar a casa apenas do ponto-de-vista funcional.

Para os primeiros, a casa é demasiado importante para que não tenha o papel principal, para que não seja tombada como patrimônio histórico e se torne um fim em si mesma. Para o segundo grupo, por outro lado, casas só se legitimam na medida em que cumprem seu papel de proteger e servir aqueles que nela se refugiam, e quando isso não mais acontece, é preciso ter coragem para dela se libertar.

Mas, e quando o morador da casa é o próprio Deus? Quais as implicações
de se pensar um Deus que habita e alberga a linguagem? 

Também aqui os modos de se responder a essas perguntas variam de acordo com nossas duas tradições. Há aqueles que acreditam que a linguagem traduz o divino e por isso deve ser levada à sério até o ponto de sua sacralização. A necessidade de manutenção dessa ordem faz surgir, inclusive, a figura dos protetores do nome, guardiões da linguagem e da doutrina. Há, porém, os que acreditam que a linguagem é arbitrária e só tem sentido e validade dentro dos limites do diálogo que se constrói no contexto de determinada comunidade linguística. Esses acreditam que ser guardião do nome não passa de uma maneira de aprisionar o divino dentro de esquemas pré-fabricados.

Para os primeiros, a teologia consiste em conservar Deus em sua casa, numa busca constante pela simetria de ambos; para o segundo grupo, a teologia consiste numa lembrança constante da assimetria inevitável, consiste em libertar Deus do nome, ou seja, buscar abrigos cada vez mais apropriados que façam jus à vocação eventual do divino.

O presente artigo, portanto, se propõe como uma provocação sobre revelação a partir dessa segunda tradição. Busca, nesse sentido, por uma teologia que se arrisque na ação do dizer, mas, consciente dos seus próprios limites.


*Artigo completo pelo link https://revistas.pucsp.br/teoliteraria/article/view/37197.

ede0755338e6a4e41de86c09614db4f9_decorative-underline-clipart-clipartfest-drawing-art-_370-370

36161247_263142567791922_5485024582496681984_n

Abdruschin Shaeffer, professor de teologia. Especialista na degustação de carneiro.

4 comentários sobre “Deus no limite da linguagem

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s