Um sistema virtuoso

“Na filosofia, é incabível não consultar Aristóteles”[paráfrase], Coronel.

Nas obras Metafísica e Ética a Nicômaco de Aristóteles podemos destacar alguns assuntos essenciais que acompanharam toda a história da filosofia, a saber, a epistemologia, a ética e a política. Apesar de estarem em livros diferentes, fazem parte de um mesmo sistema filosófico[1], o que nos possibilita empregar uma perspectiva complementar dos livros que compõem o Corpus Aristotelicum.

O estagirita desenvolve a noção de sapiência expondo os vários tipos de conhecimento e suas diferenças qualitativas. Contrário à concepção platônica, Aristóteles não menospreza a experiência e os sentidos, antes, os identifica como conhecimento em pequeno grau, que quando submetido ao raciocínio torna-se arte ou (techné, saber fazer e ensinar), e que ainda no comprometimento com métodos sofisticados e a busca da verdade pode se tornar episteme (ciência), o grau de conhecimento mais elevado.

Através da episteme aristotélica pode-se atingir o reconhecimento não de qualquer causa, mas o da finalidade de todas as coisas, que no caso em questão é o bem. Este não é uma ideia em si, mas análogo a felicidade humana.

A partir desse ponto, necessariamente, a epistemologia de Aristóteles precisa ser complementada por seus escritos éticos, onde se encontra a maior parte da explanação da noção de felicidade. Tal noção tem forte vínculo com outro importante conceito, o de virtude, na medida em que, só pode ser feliz o homem que adolesce a ação virtuosa alcançada pela contemplação da ação (a razão).

Se a vida do homem que está de acordo com a virtude é feliz, logo, o filósofo será o sujeito mais capaz de lograr a excelência de tal benefício, haja vista sua habilidade de abstração.

Embora o amante da sabedoria[2] usufrua de vantagens intrínsecas a seus próprios métodos, ele é um homem que vive no meio de outros homens. Assim, cumpre ser a argumentação racional ineficiente para tornar os homens bons ou virtuosos, pois não basta sabê-la, também é deve-se aplicá-la e usá-la.

Nesta altura de suas argumentações Aristóteles alarga os conceitos de ética – felicidade do homem na polis – e política – felicidade da polis -, sendo que o último será ainda mais detalhado na obra A PolíticaA saída indicada  é que, apesar da impossibilidade do homem comum elevar-se até a verdade e o bem, ele pode ser doutrinado pelo medo, o que implica punição e castigo como aplacadores de suas paixões e natureza despudorada.

Conclui-se portanto, em sentido ético e político, que a argumentação e o ensino não são determinantes para o bem-estar da Pólis mais do que hábitos direcionados a forjar a alma, pois as paixões parecem ceder à força em detrimento de todos os demais meios.

Não à toa Aristóteles pensa que leis adequadas precisam excitar desde cedo uma atitude virtuosa – em homens bons, que se submetem a argumentação – na mesma medida que coage o homem mau. E a confecção dessas deve ser de encargo público: feitas assim, as leis deixam de ser árduas por efeito do hábito.

Contudo, uma pergunta se interpõe na argumentação: diante de tamanha eficiência pública da lei, convém saber, quem pode ensinar a legislar? Ao passo que o filósofo responde “não o sofista”.

Para Aristóteles os sofistas não podem ensinar a legislar porque, tão pouco, ensinam política, conforme segue explanação:

“enquanto […] pretendem ensinar política, não são eles que a praticam, e sim os políticos, que parecem fazê-lo graças a uma espécie de habilidade ou experiência, e não pelo raciocínio”; e porque “[…] esses homens nem sequer sabem que espécie de coisa ela é, nem sobre o que versa. De outro modo, não a teriam classificado como idêntica à retórica ou mesmo inferior a esta, nem julgariam fácil legislar mediante uma compilação das leis mais bem reputadas. Dizem que é possível selecionar as melhores leis, como se esse próprio trabalho de seleção não requeresse inteligência e como se o bom discernimento não fosse a mais importante de todas as coisas, tal qual sucede na música”[3].

O estagirita estabelece que somente quem tem a capacidade de distinguir o bem do mal é capaz de legislar, o que não é o caso dos sofistas. O controle público deve ser exercido por leis, e o bom controle por boas leis.

Aqui o ciclo sistemático é praticamente fechado, pois somente um legislador que tenha ciência – no sentido de episteme – poderá fazer diferenciação entre bem e mal e por conseqüência conduzir os cidadãos da Pólis rumo à felicidade.

Concernente ao ensino da virtude, o estagirita de fato apresenta uma concepção bem diferente de Platão. Este tem por posição que o conhecimento é inato ao sujeito, do contrário seria impossível alcançá-lo ou até mesmo almejá-lo. O conceito platônico considera que a alma humana por uma vez já esteve em contato direto com as ideias, quando guardou para si a ímpar experiência.

Em Platão, educação como transmissão – no qual também se enquadra o ensinamento da virtude – não é possível, restando a quem ensina somente a função de estimular a lembrança, recordação e/ou reconhecimento do aprendiz. Aristóteles, entretanto, abole o inatismo, argumentando que todo conhecimento deve ser apreendido primeiro da experiência (grau elementar da sapiência), destarte, a virtude poderia ser aprendida por uma prática, um hábito baseado em boas leis, para – como dito parágrafos acima – forjar por meio da coação um caráter virtuoso, visto que por natureza o homem comum é totalmente impudico.

Fica evidente que justificadamente a filosofia aristotélica serviu de base para a cosmologia até o renascimento e também de fundamentação teológica durante grande parte da Idade Média. Seu sistema, a despeito de defasado, certamente é muito bem organizado e coerente, abarcando os mais variados assuntos dentro de um mesmo núcleo de pensamento.

Logo, para tratar de qualquer assunto de interesse filosófico, é incabível não visitar as obras de Aristóteles, ou não considerar sua opinião, mesmo que seja para refutá-lo.


  1. A palavra sistema é bem sugestiva em sua atribuição à filosofia de Aristóteles, já que esse foi um grande sistematizador.
  2. Termo utilizado como idêntico a Filósofo.
  3. Aristóteles. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1987, 194-195.

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Fábio Coronel, professor e músico iludido. Idealizador do projeto Autonomia EaD | Divulgação Filosófica.

 

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